Traumas e Feridas: A Psicologia Contemporânea Além da Fala
- macrisdotto
- 11 de jun.
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Durante muitos anos, acreditou-se que compreender racionalmente a própria história seria suficiente para aliviar o sofrimento emocional. A fala continua sendo um instrumento valioso no processo terapêutico, mas as descobertas da neurociência e dos estudos sobre trauma vêm demonstrando que nem todas as feridas podem ser acessadas apenas por meio das palavras.
Grande parte das experiências que moldam nossa forma de sentir, pensar e nos relacionar ocorre nos primeiros anos de vida, quando ainda não possuímos recursos para compreender ou expressar o que vivemos. Essas experiências ficam registradas não apenas na memória consciente, mas também no corpo e no sistema nervoso.

O médico e pesquisador canadense Gabor Maté, uma das maiores referências mundiais no estudo do trauma, afirma que “o trauma não é o que acontece com você; é o que acontece dentro de você como resultado do que aconteceu”. Sua obra destaca que a infância não é apenas uma fase da vida, mas o alicerce sobre o qual construímos nossa existência emocional. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, Maté nos lembra que “a infância é a estrada para a vida adulta”, ressaltando que as experiências precoces moldam profundamente a forma como percebemos a nós mesmos, aos outros e ao mundo.
Ao longo de minha prática clínica, observo que muitas pessoas conseguem compreender intelectualmente suas histórias. Reconhecem padrões familiares, identificam as origens de suas dificuldades e entendem por que sofrem. No entanto, continuam experimentando ansiedade, medo da rejeição, dificuldades nos relacionamentos ou uma persistente sensação de inadequação. Isso acontece porque compreender não é o mesmo que integrar.
É nesse ponto que as contribuições de Laurence Heller se tornam fundamentais. Criador do Modelo Neuroafetivo Relacional (NARM), Heller demonstra como as experiências de desenvolvimento vividas na infância influenciam nossa identidade, nossa capacidade de vínculo e nossas estratégias de adaptação. Muitas vezes, aquilo que hoje chamamos de sintomas foi, em algum momento, uma tentativa inteligente do organismo de sobreviver emocionalmente.
A psicologia contemporânea passou a reconhecer que o sofrimento emocional está intimamente ligado ao funcionamento do sistema nervoso. Quando uma criança cresce em ambientes marcados pela insegurança, imprevisibilidade ou falta de conexão emocional, seu organismo aprende a permanecer em estado de alerta. Mesmo anos depois, o corpo pode continuar reagindo como se ainda estivesse diante de uma ameaça.
Por essa razão, as práticas de regulação emocional vêm ocupando um espaço cada vez mais importante nos processos terapêuticos. Não basta apenas falar sobre a dor; é necessário ajudar o organismo a desenvolver novas experiências de segurança.
Nesse contexto, ganha destaque o papel do nervo vago, estrutura fundamental do sistema nervoso autônomo. Ele participa da regulação da respiração, dos batimentos cardíacos, da digestão e, sobretudo, da nossa capacidade de sentir calma, conexão e pertencimento. Quando o nervo vago está adequadamente ativado, tornamo-nos mais capazes de regular emoções, estabelecer vínculos seguros e enfrentar desafios sem sermos dominados pelo medo.
Práticas como respiração consciente, mindfulness, meditação, exercícios de aterramento, movimentos corporais, contato com a natureza e relações afetivas seguras ajudam a fortalecer esses circuitos de regulação. Aos poucos, o corpo aprende que já não precisa permanecer em constante estado de defesa.
A verdadeira transformação acontece quando mente, emoções e corpo trabalham de forma integrada. Afinal, algumas das nossas feridas foram construídas antes que tivéssemos palavras para descrevê-las. Por isso, sua cura também precisa acontecer para além da fala.
A grande contribuição da psicologia contemporânea talvez seja justamente esta: compreender que não basta conhecer a própria história. É preciso criar novas experiências emocionais capazes de transformar a forma como essa história continua vivendo dentro de nós.
Porque algumas dores podem ser contadas. Outras precisam ser sentidas, acolhidas e reguladas para que, finalmente, possam se transformar.